Por Ricardo Missel
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28 de outubro de 2026
Quanto mais alto o cargo, mais decisões dependem do julgamento de uma única pessoa, e menos essa pessoa recebe retorno honesto sobre como está decidindo. Atletas de alto rendimento têm técnicos. Cirurgiões experientes passam por revisões de casos. Já executivos que respondem por centenas de pessoas e por boa parte do resultado da empresa costumam tomar as decisões mais críticas sozinhos, apoiados apenas na própria leitura. Parece autonomia. Na prática, é como pilotar um avião lotado sem equipamentos. A solidão do cargo não é figura de linguagem Um levantamento publicado na Harvard Business Review mostrou que metade dos CEOs relata sentir solidão no exercício da função, e 61% deles acreditam que isso prejudica o próprio desempenho. Não se trata de falta de gente por perto. Executivos passam o dia cercados de pessoas. O que falta é alguém sem interesse direto nas decisões: os liderados filtram o que dizem, os pares disputam espaço e o conselho avalia. Mesmo assim, poucos buscam apoio. Uma pesquisa da Universidade Stanford com a consultoria The Miles Group, que ouviu mais de 200 CEOs, conselheiros e executivos seniores, verificou que quase dois terços dos CEOs não recebem nenhum tipo de aconselhamento externo sobre a própria liderança. Entre os executivos seniores, quase metade também não. E praticamente todos disseram que seriam receptivos a esse apoio, se o tivessem. A habilidade que os CEOs mais apontaram como prioridade de desenvolvimento foi a gestão de conflitos. Quanto mais alto, menos feedback O psicólogo Daniel Goleman chamou de "doença do CEO" o vácuo de informação que se forma ao redor de quem ocupa o topo. As pessoas passam a dizer ao líder o que imaginam que ele quer ouvir, e as notícias desconfortáveis chegam tarde, suavizadas ou não chegam. O efeito disso sobre a autopercepção é conhecido. Em suas pesquisas, a psicóloga organizacional Tasha Eurich constatou que cerca de 95% das pessoas se consideram autoconscientes, mas apenas 10% a 15% realmente são. Em artigo na Harvard Business Review, ela mostra que experiência e poder tendem a dificultar ainda mais a autoconsciência: líderes de nível mais alto costumam superestimar as próprias habilidades em comparação com a percepção de quem trabalha com eles. O Relatório Missel–Mapnext de Competências Comportamentais 2026, que analisou 2.958 avaliações de profissionais brasileiros, mostra outra face desse movimento. Da operação à direção, sobem tomada de decisão e influência, mas recuam organização, aderência a procedimentos e controle emocional. Apenas 13,7% de quem lidera tem controle emocional em alta intensidade, contra 22,5% no nível operacional. Os comportamentos que levam alguém ao topo não são, necessariamente, os mesmos que o sustentam lá. E é justamente nessa transição que os pontos cegos crescem. O papel de um advisor Um advisor não é um consultor que entrega respostas sobre o negócio, nem um mentor que compartilha a própria trajetória. É um interlocutor externo e independente, cujo papel é ajudar o executivo a pensar melhor, e não pensar por ele. Na prática, ele oferece o que a estrutura da empresa dificilmente oferece: • Uma conversa sem agenda. Alguém que não disputa cargo, não depende da avaliação do executivo e não tem interesse em nenhum lado da decisão. • O feedback que não chega pela hierarquia. Um olhar de fora sobre o comportamento, o impacto nas pessoas e o que está sendo evitado. • Espaço para pensar antes de decidir. Testar premissas, considerar alternativas e antecipar consequências antes que a decisão vire fato. • Continuidade. Desenvolvimento executivo não acontece num workshop. Acontece entre uma conversa e outra, com recorrência, na aplicação prática e no ajuste de rota. Eric Schmidt, ex-CEO do Google, conta que resistiu à ideia de ter um coach quando assumiu a empresa e, anos depois, passou a considerá-la um dos melhores conselhos que recebeu na carreira. Três frentes em que esse apoio faz diferença 1. Ampliar a autoconsciência. Combinar dados objetivos, como avaliações comportamentais e feedbacks estruturados, com reflexão orientada permite ao executivo ver o próprio comportamento como os outros o veem, e não apenas como imagina ser visto. 2. Qualificar as decisões. Decisões de alto impacto ganham quando o executivo tem com quem pensar em voz alta. Questionar o óbvio, identificar vieses e explicitar o que não está sendo dito melhora a qualidade da escolha e a forma de comunicá-la. 3. Atravessar transições. Promoções, sucessões, fusões, crescimento acelerado e conflitos na alta liderança são os momentos em que o executivo mais precisa de apoio e menos tem tempo para buscá-lo. Ter esse espaço já estabelecido faz diferença quando a pressão aumenta. O teste do último feedback Uma pergunta simples ajuda a avaliar o quanto um executivo está exposto aos próprios pontos cegos: quando foi a última vez que alguém lhe disse algo sobre a sua liderança que você não queria ouvir? Se a resposta demora a vir, provavelmente o problema não é a ausência de pontos de melhoria. É a ausência de alguém em condições de apontá-los. Vale também desfazer um equívoco comum. Buscar apoio para o próprio desenvolvimento não é sinal de fragilidade nem admissão de que algo vai mal. Ao contrário: é o reconhecimento de que, num cargo em que o impacto das decisões é tão amplo, a qualidade do julgamento precisa ser cuidada com a mesma disciplina que se aplica à estratégia, às finanças ou à operação. Os melhores executivos não são os que têm todas as respostas, e sim os que mantêm por perto alguém capaz de fazer as perguntas certas. É nesse sentido que atua o Programa de Coaching Executivo da Missel: como um espaço contínuo, independente e confidencial para que executivos ampliem a leitura de si mesmos, qualifiquem suas decisões e sustentem o próprio desenvolvimento. Fontes dos dados citados • Saporito, T. It's Time to Acknowledge CEO Loneliness. Harvard Business Review, 2012. • Stanford Graduate School of Business; The Miles Group. 2013 Executive Coaching Survey. Pesquisa com mais de 200 CEOs, conselheiros e executivos seniores. • Goleman, D.; Boyatzis, R.; McKee, A. Primal Leadership. Harvard Business School Press, 2002. • Eurich, T. What Self-Awareness Really Is (and How to Cultivate It). Harvard Business Review, 2018. • MISSEL; MAPNEXT. Relatório Missel–Mapnext de Competências Comportamentais 2026. Porto Alegre: Missel, 2026. • Theeboom, T.; Beersma, B.; van Vianen, A. Does coaching work? A meta-analysis on the effects of coaching on individual level outcomes in an organizational context. The Journal of Positive Psychology, 2014.