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QUANDO A RESILIÊNCIA EM EXCESSO PODE ATRAPALHAR

Por Ricardo Missel*

Em momentos de crise e instabilidade é comum termos revelações em relação ao comportamento das pessoas. É como se as identidades pessoais fossem apresentadas em sua essência, a partir da capacidade de cada indivíduo para lidar com os novos desafios. Quando isso ocorre, algumas surpresas também são reveladas. Pessoas que pareciam muito preparadas para enfrentar uma crise podem encontrar sérias dificuldades em lidar com desafios complexos, enquanto outras pessoas que pareciam mais frágeis conseguem reagir de forma bastante positiva.

Nesse momento, é fundamental que os líderes estejam atentos ao comportamento dos membros da equipe e possam identificar valores desconhecidos de cada um. Quando agimos sob pressão em tempos de crise e incerteza, inconscientemente manifestamos aspectos comportamentais que interferem de forma positiva ou negativamente na carreira profissional. Isso está muito ligado à capacidade de resiliência tão esperada das lideranças, principalmente em momentos de instabilidade econômica, política e social. Entretanto, parece que um excesso de resiliência pode também se tornar um problema.

A resiliência é uma habilidade desenvolvida ao longo da vida, a partir de experiências pessoais e profissionais onde o enfrentamento dos desafios é a grande mola propulsora. Ela é formada desde a infância por meio de experiências adversas e de aspectos ligados à confiança e ao locus de controle, um conceito que representa a percepção do individuo sobre sua responsabilidade em relação ao sucesso ou fracasso de suas atitudes, ou o quanto ele responsabiliza outras pessoas ou questões externas pelos seus resultados.

Existe um nível de resiliência que pode ser considerado mais ou menos benéfico para o desenvolvimento da atividade profissional. Administrar os desafios com resiliência em excesso pode ser negativo, a partir do entendimento de que essa característica pode desenvolver uma autossuficiência negativa para o ambiente corporativo. São líderes e profissionais que agem como se fossem capazes de resolver dificuldades e enfrentar desafios complexos sem a necessidade de ajuda dos seus liderados ou de seus pares e superiores. E o reflexo dessa postura de autossuficiência nunca é positivo para os negócios.

Algumas capacidades e características importantes para profissionais em posição de liderança podem ser impactadas negativamente quando alguém age de forma excessivamente resiliente. Vamos analisar cada uma delas:

1 – Delegação:

Pessoas excessivamente resilientes podem imaginar que, a partir da lógica de que podem superar qualquer desafio, não necessitam da ajuda de ninguém para enfrentá-los e então não delegam atividades, por mais que sejam simples. Isso tem um impacto direto em produtividade, capacidade de inovação, colaboração e desenvolvimento de novos profissionais.

2 – Comunicação:

No momento em que as dificuldades não são encaradas como um processo comum a qualquer tipo de atividade profissional e a complexidade das atividades não é compartilhada com o time, o líder age como um “lobo solitário”, pois não envolve a equipe nas atividades e não da feedback aos seus liderados sobre o desempenho, criando um ambiente de insegurança e incerteza.

3 – Humildade / Empatia

A empatia fica totalmente comprometida a partir da posição do líder como ser superior e autossuficiente. Ao demonstrar total domínio de qualquer situação, o líder assume um papel negativo de superioridade e egocentrismo.

4 – Gestão de pessoas

É provável que o líder que desenvolva uma resiliência em excesso possa considerar que as outras pessoas também tenham essa capacidade. Dessa forma, ele pode ignorar questões comportamentais da equipe por julgá-las como menos relevantes. O reflexo pode ser a falta de confiança e pouca habilidade para gerir conflitos interpessoais e questões de relacionamento entre os membros do time.

Ter consciência do grau de resiliência é fundamental. Isso pode ajudar o líder a utilizá-la de forma situacional e equilibrada, conforme a necessidade em cada situação, tirando o maior proveito possível dessa característica tão importante principalmente em momentos de crise.

*Ricardo Missel é sócio da Missel Capacitação Empresarial, Administrador e Especialista em Design Estratégico.



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