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O DIA EM QUE FUI DEMITIDO – Caderno DOC da Zero Hora

Por Paulo Germano com colaboração de Simoni Missel

Um dia, o meu editor aqui na Zero Hora resolveu me demitir. Eu tinha 24 anos. Ele me chamou na salinha envidraçada, onde só havia uma mesa e um telefone para entrevistas, sentou-se a minha frente e disse assim:

-Você não vai voltar.

Então por que me demite, ô, filho de uma égua?

Mas só pensei, não falei. Até porque as razões para me dispensar eram bem razoáveis. Não que minhas reportagens fossem ruins, pelo contrário, o problema é que eu sofria. Deus do céu, como eu sofria. Verdade que eu sofro até hoje – para você ter uma ideia, sabe quanto tempo eu levei para escrever esses parágrafos? Chute.

Três horas e meia.

Tenho déficit de atenção, tomo remédio e tudo o mais, só que hoje acumulo alguma experiência. Naquela época, além de lerdo e nervoso, eu me sentia o repórter mais inseguro, apavorado e aflito de todos os jornais da história da imprensa mundial. Acordava todo o dia de manhã repetindo o edificante mantra:

– Não vou conseguir, não vou conseguir, não vou conseguir.

Aí, bem, eu não conseguia. Por isso, o meu editor discursou na salinha, os cotovelos fincados na mesa.

– O trabalho precisa ser uma realização, não um martírio – ele espetou o indicador no ar, e eu quase chorei. – Mas um dia você volta, porque ninguém tira esse patrimônio que é seu: o talento, o bom texto, o domínio da língua – o cara agora me elogiava, era só o que faltava, qualquer idiota sabia que eu era um fracasso. – É que algumas pessoas demoram um pouco mais para amadurecer: Luís Fernando Veríssimo, por exemplo, só foi lançar o primeiro livro aos 37 anos – disse ele, e eu enfim experimentei o consolo.

O maior escritor do país não era ninguém quando tinha a minha idade? E, se Luís Fernando Veríssimo não era ninguém, quem era eu para ser alguém? Foi bom saber aquilo.

Quando cheguei em casa naquela tarde, já desempregado, fui pesquisa a história do Veríssimo e descobri que, antes dos 30, ele jamais havia escrito uma única linha sobre nada. Pensava em ser arquiteto mas nem quis fazer faculdade, jamais foi além do colégio, e toda essa indefinição profissional preocupava o velho Érico, seu pai. Aliás, Luís Fernando levou para a cada do pai, aos 30 anos de idade, a própria mulher e a filinha a tiracolo.

Não era um vagabundo, era um perdido.

E eu ali, com 24 anos, até passei a aceitar o conforto de meu carrasco. Quem sabe eu demorasse um pouco para engrenar, talvez um dia até retornasse ao jornal, como de fato retornei um ano depois. E agora, uma década mais tarde, veja que coisa, não sou nenhum Veríssimo, mas assino até uma coluna. Quem sabe aos 37 eu não escrevo um livro?

Sei que essa é uma história pessoal, não quero soar ególatra. Mas vai que alguém se identifica – seja um jovem no alvorecer da carreira, seja o pai preocupado com ele –  e compreende a importância da paciência, que só fui compreender com o editor que me demitiu. Hoje, agradeço a ele. Mas a frase que há anos quero escrever é a seguinte: obrigado por tudo, Luís Fernando Veríssimo.


 

Como assim, Simoni Missel*?

Psicóloga especialista em desenvolvimento de carreira.

Veríssimo lançou seu primeiro livro aos 37 anos e tornou-se conhecido com mais de 40. A ideia de que um grande talento vem sempre de um jovem prodígio é mito?

Simoni: Sem dúvida. Em geral, o talento está dentro da pessoa, mas encontrá-lo pode ser um processo demorado e angustiante. Até porque algumas pessoas demoram mais do que outras para atingir a maturidade emocional. À medida que essa maturidade se manifesta – e isso depende das experiências que a pessoa teve, os ambientes que ela frequentou, do quanto ela esteve aberta para oportunidades -, os caminhos passam a ser mais claros. Sabe-se que as pessoas com vida mais sofrida, obrigadas a se desenvolver com mais rapidez devido às contingências da vida, costumam atingir esse amadurecimento emocional mais cedo.



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